

I
Um dia enfastiante. Os resultados da bolsa naquela tarde não foram nada animadores, a reunião com os sócios de sua empresa inviabilizava qualquer alternativa que não a insolvência dos negócios no ramo do comércio varejista e, para completar, os gazes ainda lhe incomodavam desde o almoço. Saía as 19:00, geralmente, já eram 21:30 e os papéis que se acumulava sobre sua mesa indicavam um dia de trabalho incompleto. Em casa, a situação não era boa também, o pedido de divórcio de sua esposa fora julgado com ganho de causa para ela, devia-lha mensalmente polpuda renda. A solidão reinava naquele garboso e espaçado apartamento. As crianças sofriam. A menina mais velha, muito apegada a mãe, carregava todo o rancor do matrimonio mal resolvido que a ex - esposa exalava. Costumeiramente, olhava para o pai com aquele desdém que só esposas e filhas conseguem fazer e que atingem em cheio a moral de um homem, i’nda mais quando este fragilizado está. A cabeça lhe doía, o corpo - acostumado àquela cotidiana poltrona - também reclamava dos excessos, estava sozinho por que sempre aprouvera -lhe muito mais os frutos de sua empresa do que de sua família. Supunha, embasado no pensamento liberal, que o melhor por fazer era trabalhar, trabalhar, trabalhar e depois a felicidade viria a reboque. Dos dinheiros, adquiriu uma frieza quase impenetrável, parecia fazer negócios até com a mulher (agora ex), não raro fosse recriminado por esta mania de sempre barganhar. Contudo, aquilo que sempre constituiu o alvo magnânimo das suas atenções estava, a passos largos, definhando: gradativamente seus negócios ruíam, à crise pessoal assomava-se o drama empresarial. Necessitava de descanso, ar, pensamentos vagos, abstrações. Decidiu-se, embora não fosse este seu costume, ir embora do escritório, mesmo sabendo que amanhã já poderia ser tarde demais. Aquela decisão, aparentemente impensada, na verdade surgia de uma ruptura muito grande com valores já constituídos seus, beirava aos cinqüenta, percebera o tempo passando ao largo de sua vida, naquele momento mudavam suas prioridades, a partir de então iria valorizar mais a sua satisfação, os seus desejos e impulsos, vontades e sensações, coisas tão bem reprimidas pelo capitalismo e canalizadas para o malfadado mercado de trabalho, segundo nos sugere Reich.Teve, pela primeira vez, vontade de voltar a ser jovem. Pegou seu paletó da cadeira e desligou o computador num acesso de cliques renitentes, tictictictic, clicava em tudo que aparecia, em movimentos autômatos e apressados, como um roqueiro que é obrigado a tocar samba. A luz do escritório nem se preocupou em apagar; tlumc, a porta foi fechada; pin: seta para baixo acende, a porta abre-se; tiiiiiiiiii, avisa o sensor que há algo no vão da porta, brummmmm, põe-se a descer o elevador, sua fronte carregava uma leveza que quem o visse jurava que fosse butox, desconfiança dos nossos tempos. Estava realmente mais jovial. Apressado, apertou o passo em direção ao seu automóvel, um dos poucos que ainda restavam naqueles cinco andares de estacionamentos do prédio comercial. Vrum, ligou o carro; cantou pneu, num som irreproduzível por ajuntamento de letras, já ia descendo aquela rampa, pé solta os pedais, o carro descia de acordo com o seno do ângulo que o declive formava com o chão, numa breve lembrança da cinética do extinto segundo grau. Foi num piscar de olhos e num leve toque no acelerador - impulso incontrolável ao ver o portão para a rua escancarado: liberdade!! foi o que ele pensou, assim - acabou por sair da garagem
II
Perto dali, numa rua mal iluminada, a velhinha passava calmamente, mais por conta de sua idade onde a paciência e a serenidade já são atributos adquiridos, do que pelas circunstâncias em si. O pouco movimento de carros tornava o lugar mais lúgubre ainda. Das sombras, salta um vulto negro, de alcunha social definida: meliante, e com toda habilidade de um prestidigitador que é, leva a bolsa cuja alça se dependurava nos ombros da indefesa senhora; os gritos roucos dela, não foram mais longes do que as ágeis pernas do batedor que, à galope, e conhecendo o terreno, some em pouco. Era o seu dinheiro do remédio, furtado havia sido, precisava dele todo o mês, já não eram poucas as doenças que aquela alta idade acumulava. Seu sofrimento calado passou desapercebido pela insensibilidade alheia generalizada, foi tirada por charlatã quando tentou contar a situação para um jovem casal de enamorados passantes, nem mais o amor é capaz de amolecer os nossos corações em dias de hoje: “mais uma querendo algum fácil, querida”, teria dito o rapaz a sua bela quando se afastavam dali. O batedor, agora mais calmo e sem o gorro (já tinha efetuado a limpa!) por precaução - e por que não? - uma certa dose de sadismo, descartou a bolsa da senhora num aflúvio acimentado que cortava a rua em duas. Ia pela calçada contando o dinheiro da ação, distraidamente; aquele pipipi e o pisca-pisca amarelo não foram suficientes para lhe chamarem a atenção: ali havia uma garagem e um carro que saia. Tum!!!!
III
Imagens. Um carro freando brusca e inutilmente, um corpo sendo lançado ao longe, um mendigo vendo tudo que se levanta.
O empresário sai do carro atabalhoadamente, que má forma de começar uma nova vida, se alguma outra deveria de acabar seria a sua própria anterior e não a de um transeunte qualquer. Depara-se ele, além da mancha de sangue e algumas notas espalhadas no chão, com o fétido exalado daquele corpo mendicante, coberto de manchas sujas, ao se movimentar. O mendigo parece olhar-lhe nos olhos e vir em sua direção, impressão esta desfeita momentaneamente quando o indigente bruscamente se agacha, parece num giro de dança, e passa a catar algumas das cédulas caídas, muitas não lhe despertam a cobiça, só aquelas necessárias para alguns dias de comida e cachaça. Ele se levanta e em cada gesto brusco reforça-se a desagradável sensação de latrina odorífera ambulante, tornando, então, a caminhar em direção ao exasperado empresário, sempre mirando os seus olhos, parece que vai falar, começa com uma voz embargada:
- a pressa... por que vivemos com tanta pressa?.. De que nos valem tanta correria por segundos, tantos esmeros por instantes? Parece até que a nossa pressa tanta é medo de encontrarmos a vida. O senhor taí, ,de carrão importado, correndo sempre pra lá e pra cá, mesmo na calçada não respeita mais ninguém, blindou-se na carroceria prateada, armadura da sua individualidade, escondeu-se atrás do seu insul-film, a tua pressa lhe permite passar por cima de vidas, impor-se através do dinheiro, garante-lhe prioridade, grande engrenagem da sociedade... viver? Isto não é mais importante do que ter pressa, somar, somar, somar, isso sim importa pra vocês burguesinhos estúpidos... deveria ter pressa você para ajudar alguém que precise, deveria ter pressa para fazer uma boa ação, pressa para amar alguém ou pra ser amado, pressa para perdoar e sorrir... mas não... o nosso tempo está contaminado com o vírus da pressa pela gana, pela competição, devemos ganhar, ocupar o espaço na frente do outro, nem que para isso deva- se meter o carro em cima de qualquer pobre coitado, ...
Ele continuava falando, com uma erudição atípica aos moradores de rua e aquela lucidez e não mais o cheiro era o que incomodava agora o empresário. O desnorteio foi tão grande que nem burguês nem o mendigo perceberam que o atropelado não estava mais ali, na certa saíra andando com a ajuda de alguém, nem também o carro de polícia donde desembocavam dois PMs. Alarmados pela multidão que se aglomerava, viram aquele grande burburinho e não titubearam. Cada qual de um lado, alçaram o mendigo do chão e, aos solavancos o enfiaram dentro da caçamba da viatura, da janela gradeada era possível mirar aquele barbado rosto sujo e transtornado que certamente ainda esbravejava injúrias contra o capitalista. O camburão se afastou, as pessoas aos poucos se dispersaram - nada mais lhes interessavam ali, ainda restavam algumas moedas no chão que foram recolhidas pelo empresário antes de ele retornar a seu carro, sintonizar numa estação, ligar o seu automóvel e partir e voltar para o seu escritório e trabalho, submerso em nossa hipocrisia.